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PAPO DE BANDA - GAGGED (T1 E1)

por Flávio Almeida



Olá, meu nome é Flávio Almeida e sou guitarrista & vocalista da banda Facing Death de Jundiaí/ SP. A ideia desse projeto não é fazer uma entrevista convencional, mas sim trazer para os leitores, curiosidades, perrengues, realidades e as motivações que fazem as bandas alternativas e independentes caírem na estrada para divulgar o próprio trabalho, tudo isso em forma de um bate papo descontraído. Nessa primeira temporada, entrevistei uma galera que cruzamos em algum momento da tour de divulgação do álbum From Here to the Unknown da Facing Death e o resultado vocês conferem aqui, em dez entrevistas com dez pessoas de dez diferentes bandas!! Seguimos!!

E para começar a temporada, meu grande amigo Zeca Ruas, da banda Gagged de São Carlos/ SP.

FAlmeida – Vamos lá Zeca, para começar e situar a galera, conte um pouco sobre a história da Gagged.

Zeca Ruas – Fala Flavião! Prazer falar contigo. A Gagged é uma banda que completa 15 anos em 2019. Foram muitas idas e vindas, alguns hiatos formais e outros informais, mas ela sempre volta pra estrada, que é o lugar dela.

Foi formada pelos irmãos Murilo e Leo Ramos e, desde o começo, já se meteu a fazer um som agressivo que misturava referências do punk paulista dos anos 1980 e o som do hard core melódico americano da virada para os anos 1990.

Foram muitos shows em São Carlos e região nos anos que seguiram. O Murilo esteve por trás de uma pequena produtora que fez muitos shows em São Carlos. Isso ajudou a reunir ou formar público e levou a Gagged pra um novo patamar. Apesar das demos e shows, a banda parou por um tempo e voltou somente na virada da década, já com formação nova.

Com Ali (guitarra), Eric (baixo) e Carlinhos (voz), a banda gravou seu primeiro álbum, Silent. Lembro da época do lançamento. Poucas bandas faziam discos com participações nessa época... e a presença do Rodrigo Lima deu um up na divulgação do trabalho, que já vinha forte.

Foram muitos shows apresentando o disco em várias cidades do estado. Foi quando realmente muita gente passou a conhecer a banda. Em 2013, algum tempo depois do lançamento, Carlinhos e Leo deixaram a banda.

Foi quando Ali e Murilo me convidaram a entrar. Fiz a parte final da tour do Silent, num período relativamente curto com o Jr na guitarra, mas que a gente viajou para alguns lugares bacanas e gravou uma faixa no Tributo ao Nitrominds. Foi meu primeiro registro com a Gagged.

Depois fizemos um hiato programado para compor e gravar. O Lique entrou na guitarra no lugar do Jr e ficamos com muita confiança que faríamos um bom álbum... O processo de composição teve momentos intensos e alguns sem sequer nos encontrarmos. Teve hora que parecia que não sairia nada. Em 2017 “Sobre Nós” já estava gravado. Fizemos uma tour de pré-lançamento e, assim que ela acabou, Ali e Eric resolveram sair. Antes de lançarmos o clipe de Cidade Sem Lugar, que já tava gravado, tivemos a entrada do Junão no baixo e do Rodrigo na guitarra. Quando a gente lançou o clipe já estávamos, sem anunciar, com nova formação ensaiando pra levar a tour de lançamento... e desde outubro de 2018, quando saiu o álbum “Sobre Nós”, a gente meteu o pé na estrada e levamos nossa música o mais longe que a gente conseguiu.

FAlmeida – Bom, eu conheci a Gagged através de um amigo em comum, o Floco MC aqui de Jundiaí que aliás, cresceu na mesma quebrada que a gente aqui da Facing Death! Na época, eu estava tentando promover um circuito para a Facing Death no interior de São Paulo, pois acredito muito no potencial artístico da nossa região. Quando conheci você, percebi logo de cara que as nossas ideias batiam com relação a isso! Conte um pouco como tem sido para a Gagged fazer esse circuito no interior de São Paulo:

Zeca Ruas – O Floco tem uma proximidade com a gente por ter trabalhado com o Deivide Leme, nosso amigo talentosíssimo de Araraquara que é uma verdadeira fera do audiovisual. Foi ele que concebeu, dirigiu e gravou nosso clipe de Cidade Sem Lugar. Sobre o circuito do interior, penso que é um grande espaço a ser construído. Ao contrário das grandes capitais, que reúnem públicos maiores para cada nicho específico da música alternativa, o interior reúne um público considerável de pessoas buscando opções diferentes, mas que nem sempre conseguem formar uma demanda regular para bandas como a gente. Formar esse público depende de muito investimento de tempo, paciência e organização de bons eventos. É preciso bons espaços, com equipamentos pelo menos razoáveis... pra que a galera realmente se divirta e pense em voltar. Quando isso acontece, em geral aparecem bandas novas e esse movimento se retroalimenta por um tempo, viabilizando intercâmbio com bandas de outros lugares. Se a gente conseguisse fazer isso em cada cidade média de São Paulo... teríamos um dos circuitos de música independente mais interessantes do país.

FAlmeida – Para colocar de pé um circuito que as bandas possam realmente ter uma frequência de shows satisfatória, temos sempre dois caminhos: Ou um produtor local ou diretamente com as bandas. Na sua opinião, o que tem funcionado melhor para a Gagged no cenário atual e qual a sua perspectiva para isso em um futuro próximo?

Zeca Ruas – Qualquer cadeia produtiva musical precisa de algumas atividades: composição e registro musical, apresentações públicas e divulgação destas atividades. Quando o mercado de uma banda ou de um estilo fica economicamente maior (gerando mais dinheiro), cada uma destas atividades pode ser exercida de maneira profissional. Os músicos podem viver de sua atividade, os estúdios ficam melhores, os produtores artísticos e gestores de carreira encontram seus espaços, os produtores culturais organizam eventos, as casas de show recebem um maior público, vendem mais, e a divulgação pode ser executada por mídias especializadas. Esse preâmbulo de economista (rsrsrs) é pra afirmar que a presença de um produtor local é uma variável positiva, por que permite que as bandas possam focar na execução do show. A presença de produtor também indica que há alguma possibilidade de ganhar dinheiro intermediando bandas e casas de show. Ou seja, tem público por ai. Mas a realidade do underground hoje, não permite isso sempre. Quando as bandas organizam eventos é por que toparam assumir o risco econômico do evento. É muito natural, é como a gente opera na maior parte do tempo, dá um trampo do caralho, mas também é muito satisfatório quando dá certo. Mas eu acho que a presença de produtores é melhor para as bandas e indica que a coisa vai bem.

FAlmeida – O grande desafio de qualquer banda independente quando decide cair na estrada é gastar o mínimo possível de dinheiro que, muitas vezes não é recuperado com os shows. Conte um pouco como é a organização da Gagged sobre esse assunto, pois particularmente, eu já vi diversas bandas com bom potencial acabarem quando entram em discussão sobre esse assunto, que vem à tona normalmente após a produção de um material e a montagem de um show para divulgação.

Zeca Ruas – Um amigo experiente da música uma vez me disse assim: “se você for esperar fulano ter dinheiro pra gravar teu disco, você nunca vai gravar nada”. Cada banda tem seu arranjo. E penso que cada um deve contribuir da forma que puder. Mas nesses anos todos de estrada uma coisa ficou clara pra mim: é muito difícil manter a energia de uma banda por muito tempo, especialmente quando ela não se torna a profissão e fonte de renda de cada músico. Ou seja, pra maior parte das bandas independentes, o relógio joga contra. Alguma hora alguém não vai poder mais. Então, penso que se alguém puder fazer acontecer, faça. Ponha o dinheiro.

FAlmeida – Justamente por esse motivo (custos) é bem difícil para uma banda sair do estado etc... Isso requer um planejamento financeiro da banda, além é claro da qualidade do material que será divulgado e da receptividade dos produtores/ bandas. Conte um pouco como a Gagged faz para colocar shows fora do estado, o quão difícil isso tem sido ultimamente e se vocês pretendem continuar.

Zeca Ruas – Fazer shows fora do estado, em várias regiões diferentes é uma tarefa de planejamento longa. Tem que ter um bom projeto, apresentar um bom material mas, acima de tudo, conhecer como funcionam os lugares, as casas de shows, os produtores, as bandas... e estar disposto a sair queimando estrada. A gente sempre conta a história da “sementinha”. Viajamos milhares de quilômetros em cidades e estados diferentes nos últimos 12 meses. Em alguns, foi incrível: público, energia, venda de merchan. Outros, meia dúzia de gato pingado. Mas vou te contar: teve lugar que tocamos pra 5 pagantes. Meses depois, escrevem, ligam, divulgam, chamam pra shows em lugares diferentes. Eu vejo muita banda boa que só faz “show certo”, com bandas de destaque, em lugares bacanas... o público delas pode até ser grande, mas fica concentrado. A gente ainda é muito pequeno... mas criamos raízes em muitos lugares. E elas vem brotando e abrindo portas novas.

FAlmeida – Um festival é sempre uma ótima oportunidade para uma banda divulgar o seu trabalho e melhorar o intercâmbio. Nós da Facing Death já tentamos alguns, mesmo na época que estávamos em uma gravadora, e sempre é uma correria para mandar material, tentar contato com a organização etc... Nunca conseguimos nem ao menos ter uma resposta rsrsrs. Conte um pouco se isso já ocorreu com a Gagged e qual a sua opinião sobre.

Zeca Ruas – Além de bom trabalho, penso que a presença em festivais é também resultado de bons contatos. São muitas bandas boas fazendo trampos incríveis e que certamente poderiam participar destes eventos. A cabeça do produtor de festival tem que pensar no público, na receita que isso vai trazer, na imagem que vai gerar para o festival, na composição/curadoria de estilos, representatividades diferentes... se você não tiver um bom diálogo com estes produtores é sempre mais complicado. Se sua banda consegue alguém dedicado pra esta atividade, perfeito! mas isso só é possível se, antes, você já gerou seu próprio público. Por isso volto à construção da sua própria base local. É um processo relativamente gradativo e demorado. Acho que a presença em grandes festivais é mais consequência do que parece.

FAlmeida – A Facing Death é composta por apenas 3 integrantes e estamos distantes 15km uns dos outros. Isso otimiza bastante a nossa logística para ensaios e shows. Eu sei que a Gagged originalmente é de São Carlos, mas também sei que você mora em Campinas. Me conte como vocês fazem para ensaiar os shows e como é a organização logística para as turnês.

Zeca Ruas – hahhaha. Essa é braba né? A gente costuma fazer dois tipos de ensaio. Alguns só instrumentais... neles eu não vou, exceto quando é pra arranjo e composição. Em geral rola um por semana com minha presença. Dependendo da época, quinzenalmente. Daí são 280 km somando ida e volta. Tenho família em São Carlos, mas muitas vezes é bate e volta de noite mesmo. É cansativo, mas eu realmente gosto. Não dá preguiça, hehe. Quando rola tour a gente viaja com minha Doblô. Dá pra levar muita coisa... é um dos investimentos que decidi que valia a pena fazer. Daí é só ver qual o melhor caminho. Se for por Campinas, o pessoal vem pra cá. Se for sentido interior, vou buscar todo mundo lá em São Carlos. Tem funcionado bem.

FAlmeida – É sempre uma batalha para as bandas independentes deixarem os instrumentos em ordem, regulados e em funcionamento perfeito, pois quando se vai para a estrada acontece de tudo. Isso requer um gasto com insumos (cordas, baquetas etc...) e também com Luthier etc... Como é a organização da Gagged com relação a esse assunto? Cada um por si ou há divisão de todos os custos operacionais?

Zeca Ruas – Mais ou menos cada um por si. Os gastos mais normais, cada um tem que fazer o seu. Mas a gente se ajuda. O Murilo ajudou o Eric a comprar o baixo dele há alguns anos. O Ali deixou uma teleca na mão do Lique por mais de um ano. O Rodrigo fez toda a tour com um head e gabinete de guitarra meu. Acho que a gente sempre seguiu a máxima que falei antes. A gente sempre se pergunta “que posso te ajudar? Bora fazer acontecer”.

FAlmeida – Normalmente os integrantes das bandas independentes (que não dependem da banda como fonte de renda) tem trabalho durante a semana e isso permite fazer os shows, ensaios e gravações somente aos finais de semana que, são concorridos também com a família. Conte como vocês lidam com isso e como é a rotina dos integrantes da Gagged.

Zeca Ruas – A vida de cada um de nós é bastante diferente. E, pior do que isso, o ritmo muda muito e sempre alguém tá mais fudido ou de tempo ou de grana. Essa gestão do tempo é o mais difícil. Mas, de maneira geral, pra gente show só final de semana, feriado e, dependendo do local, quinta feira. Se for de quinta, tem que voltar pro trabalho na sexta. Ensaio até rola no meio da semana. Não é incomum a gente marcar ensaio 22h numa terça ou quinta. A gente se vira bem. Acho que o mais difícil é ficar longe da família nos finais de semana de tour. Em geral a gente acaba “perdendo” feriados e oportunidades de viajar com a família. Alguns de nós são casados e têm filhos... é bem mais difícil. Mas não tem outro jeito. A gente acaba se organizando pra aproveitar com eles em outras datas.

FAlmeida – Para finalizar aqui Zeca, gostaria que você contasse um pouco o que motiva a Gagged continuar com essa doideira que é ter banda no Brasil e mande um recado para os leitores!

Zeca Ruas - Acho que é muito parecido com todas as bandas... tem aquele lance de botar pra fora as coisas que a gente sente... e que a gente usa a música como canal. Tem a resposta do público, quando a gente vê alguém cantar uma música nossa, usar nossa camiseta, dizer que curte nossas letras, nossos arranjos... e a sensação infinita de que sempre tem algo a mais pra fazer. Um som novo pra testar, um ritmo, um arranjo, um tema pra ser explorado. Na verdade, motivação não falta... resta saber até quando teremos fôlego.

FAlmeida - Bom, é isso pessoal, essa foi a entrevista com meu camarada Zeca Ruas da banda Gagged de São Carlos - SP. Ouça o som deles, principalmente o disco lançado em 2018, o Sobre Nós, completamente em Português. Um baita trampo massa, feito aqui no interior de São Paulo e que conta, pasmem, com a participação de Greg Hetson (ex-Bad Religion, Circle Jerks, Black President entre outras) tocando o solo da música “Caleidoscópio” e que foi masterizado por Nick Townsend, que já trampou com bandas como Alice in Chains, Pearl Jam, Thrice, Paramore, Garbage e Fireburn, por exemplo. Eu destaco aqui as faixas “Sobre Inferno e Demônios” e “31 de Março”.

A gente se encontra aqui em breve, tchau!



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